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História da Música

As sete artes liberais formam o conjunto de disciplinas que, na educação clássica e na Idade Média, visavam ao desenvolvimento intelectual e moral da pessoa. Dividem-se em trivium (gramática, retórica e dialética) e quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia). Na Maçonaria, são valorizadas como símbolo da busca pelo conhecimento e pela verdade. Aqui trataremos apenas da música, que nas artes liberais é mais do que prática musical: envolve a compreensão das proporções harmônicas e dos princípios matemáticos que regem os sons. Para Platão, a música significava o número no tempo.

A música e a matemática estão intimamente ligadas. Os intervalos entre as notas podem ser expressos em razões numéricas: a oitava corresponde a 2:1 e a quinta a 3:2. Ritmo, escalas e harmonia também se descrevem em números, e a notação musical usa símbolos e números para representar duração, altura e dinâmica. Nas palavras de Kurt Pahlen, a música é “um fenômeno acústico para o prosaico; um problema de melodia, harmonia e ritmo para o teórico; e o desdobrar das asas da alma, o despertar e a realização de todos os sonhos e anseios de quem verdadeiramente a ama”.

O homem primitivo e as civilizações antigas

A vida é som e movimento. Antes de haver ouvidos humanos, já borbulhavam as águas e ribombavam os trovões; o trovão tornou-se símbolo dos poderes celestiais, e religião e música mantiveram-se inseparáveis por muitos séculos. A música é velha como a humanidade e, junto com a dança, a mais antiga das artes, mas nenhum som nos chega das culturas mortas. Conhecemos instrumentos e cenas musicais por monumentos, vasos e túmulos, sem saber como soava aquela música. Por muito tempo ela foi considerada ciência oculta, confiada a sacerdotes e executada apenas nos templos.

Na China, por volta de 2500 a.C., Ling Lun ordenou os cinco tons da escala pentatônica e deu-lhes nomes de classes sociais, do imperador ao camponês. Na Índia, a música equivalia à “grande harmonia universal”; no Ceilão surgiu o mais antigo instrumento de cordas conhecido, o ravanastron. Em Ur, na Suméria, foi encontrada uma lira de cerca de cinco mil anos, e os egípcios cultivaram música religiosa, profana, de trabalho e de dança. Com os judeus, que concentraram na poesia e na música a força criadora que não podiam dedicar às imagens, fez-se a transição para a primitiva música cristã. Davi e Salomão tornaram-se seus símbolos.

A Grécia e seus filósofos

Os gregos baseavam a música na razão e na proporção. Pitágoras, educado no Egito, é creditado com a descoberta de que os intervalos harmoniosos se exprimem por proporções numéricas simples, e sua escola via nisso a ordem do cosmos: a “harmonia das esferas”, música inaudível produzida pelo movimento dos astros. Aristóxeno de Tarento, aluno de Aristóteles, privilegiou a percepção auditiva e é considerado o pai da musicologia. Platão, em “A República”, e Aristóteles, em “Política”, destacaram o papel da música na formação do caráter e da alma. Ptolomeu, no século II d.C., relacionou música e estados emocionais.

Apolo era o patrono da música, e as Musas inspiravam artistas e poetas. A cítara, associada a Apolo, simbolizava a ordem; o aulos, ligado a Dionísio, o êxtase. A música estava presente nos festivais, nos Jogos Olímpicos e Píticos, no teatro e na educação, ao lado da ginástica. Os gregos identificaram sete modos (Dórico, Frígio, Lídio, Mixolídio, Eólio, Iônio e Lócrio), cada um com caráter emocional próprio, base da teoria modal ocidental. O “Epitáfio de Seikilos” é um dos raros fragmentos musicais que sobreviveram.

Roma e a Idade Média

Roma adotou a cultura grega sem compreendê-la, e a elevação espiritual tornou-se trivialidade: os cantos meditativos viraram fanfarras de espetáculos sangrentos. Os primeiros cristãos, reunidos nas catacumbas, encontraram nas melodias orientais trazidas por Pedro, em 54, a expressão de suas preces. O papa Gregório Magno reuniu e organizou as melodias do culto, e daí vem o canto gregoriano, monódico e vocal, que perdurou por quase mil anos. Nos mosteiros, como a Abadia de São Galo, a música avançou na teoria, mas, afastada do povo, tornou-se “ciência dura e seca”.

Güido de Arezzo (995-1050) aperfeiçoou a escrita das notas e criou o alfabeto musical a partir das primeiras sílabas de um hino a São João (“Ut queant laxis, Resonare fibris, Mira gestorum, Famuli tuorum, Solve polluti, Labii reatum, Sancte Ioannes”), dando origem a Dó-Ré-Mi-Fá-Sol-Lá. Com o feudalismo e a cavalaria, a música ganha temas profanos: surgem os bardos celtas e, a partir do século XI, os trovadores, em sua maioria cavaleiros. Adam de la Halle, “o último trovador”, morreu em 1287.

As cidades e a Renascença

Com o crescimento das cidades, os burgueses herdam dos cavaleiros o poder e a música. Nasce a polifonia, a “nova arte” de Paris, com motetes e cânones que mais tarde originariam a fuga, e os mestres das Flandres (Dufay, Okeghem, Josquin, Willaert, Lasso) irradiam o estilo pela Europa. Os músicos começam a se organizar, como na Irmandade de São Nicolau, em Viena (1288). Na Renascença, Palestrina leva a polifonia ao apogeu e, em Florença, a reação contra o contraponto faz triunfar a nova música: surgem o madrigal, a música de câmara e a ópera. Em 1500, Petrucci imprime notas musicais pela primeira vez, em Veneza. Com Bach, a escrita musical se aperfeiçoa, e o piano nasce em 1711, pelas mãos de Cristofori. A arte, que na Idade Média se dedicava a Deus e à eternidade, passa a se dedicar ao homem. Já Kurt Pahlen lembra que “a história é sempre injusta”, pois é escrita por homens.

A música moderna

Hoje distinguem-se a música culta, a popular e a folclórica. A música religiosa, a forma mais antiga de música artística, diminuiu muito; o papa Pio X, em 1903, decretou o retorno definitivo ao canto gregoriano, enquanto nas igrejas protestantes o canto dos leigos permanece importante. A música de câmara retrocede com a vida apressada, e o coro é a última instituição de cultivo da música de amadores. Pahlen conclui que arte e natureza vêm de Deus, e que talvez uma nova civilização faça delas os fundamentos da vida, fazendo “com que os corações se compreendam”.

Música e neuromodulação do sistema nervoso

Neuromodulação é a estimulação, inibição ou regulação da atividade do sistema nervoso por meio químico, elétrico ou mecânico. Entre as técnicas conhecidas estão a estimulação magnética transcraniana (TMS), a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS), a estimulação do nervo vago (VNS) e a estimulação cerebral profunda (DBS). A música atua sobre o córtex auditivo, o sistema límbico e o córtex motor, libera dopamina, serotonina e endorfinas, e já é usada como neuromodulação não invasiva em reabilitação pós-AVC, depressão, reabilitação cognitiva e doença de Parkinson.

Os elementos musicais podem ser comparados aos parâmetros dos neuroestimuladores: altura (Hz), volume (dB), ritmo, que funciona como as ondas em burst dos estimuladores convencionais, e timbre, a forma da onda. Assim, a música seria uma neuromodulação fisiológica.

Exemplo de onda sonora
1 – Exemplo de onda sonora
Exemplo de ondas elétricas de neuroestimulador: bursts e fase de recarga passiva
Estimulação tônica, em burst e de alta frequência
2 – Exemplos de ondas elétricas geradas pelo neuroestimulador

O chamado efeito Mozart foi descrito por Rauscher (Rauscher et al., 1993): voluntários que ouviram a Sonata para dois pianos em ré maior (K448) tiveram melhora temporária no raciocínio temporal por cerca de 15 minutos. Husain (Husain et al., 2002) replicou o estudo com a mesma música, substituindo os acordes maiores por menores.

A frequência de 432 Hz

Há citações de que Pitágoras teria estabelecido a nota Lá em 432 Hz, o “Som de Deus”, hoje chamada “Afinação Natural” ou “Afinação de Verdi”. Não há evidências históricas disso: a associação da frequência com conceitos espirituais e esotéricos é moderna. A afinação padrão baseia-se em 440 Hz para o Lá (A4), adotada pela ISO em 1955, e até o momento não há evidências científicas robustas de que 432 Hz tenha propriedades especiais em comparação com 440 Hz. A percepção de que uma frequência é mais agradável pode ser subjetiva e influenciada por fatores culturais e pessoais.

Em 9 de abril de 1988, em Milão, o Instituto Schiller reuniu cantores e instrumentistas renomados para exigir um retorno à afinação natural, na qual o dó central equivale a 256 Hz (Afinação de Verdi), citando o próprio Verdi, para quem uma afinação mais grave soa mais nobre e majestosa (veja também). Brian T. Collins, em seu site omega432.com, relata a campanha de preservação do tom de 432 Hz e cita um artigo da APS segundo o qual a forma espiralada da cóclea aumenta a sensibilidade às baixas frequências. Outras teorias, como a de Ananda Bosman, em 432hz.com, têm viés esotérico, e o próprio site ressalva que suas declarações não foram avaliadas pela FDA.

Como existe dualidade em quase tudo, surgiu o aplicativo iDoser, que promete “doses” de ondas cerebrais por áudio binaural, de relaxamento a simuladores de efeitos de drogas. É preciso cuidado para que nossas paixões não nos façam esquecer o questionamento e a busca por respostas científicas, mantendo uma postura crítica e objetiva diante das evidências.

Como vimos, existe grande interação entre a matemática e a música, além da aplicação desta ao aprendizado em geral. Fica o questionamento: utilizando a frequência musical de 432 Hz, poderia haver uma melhor resposta no tratamento dos acometimentos neurológicos e na aprendizagem?

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Mestre Maçom da ARLS Cavaleiro Templários da Luz

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